Criar um SaaS com IA ficou fácil, e isso é ótimo para testar ideias. O problema é que funcionar e ser seguro são coisas diferentes, e as falhas de segurança não aparecem na tela. Antes de receber dados de clientes, vale conferir os pontos abaixo, mesmo sem saber programar.
Os números explicam o cuidado. O relatório de 2026 da Veracode testou mais de 100 modelos ao longo do tempo e encontrou quase 100% de acerto na sintaxe, mas só 56% nos testes de segurança, praticamente o mesmo do ano anterior. O teste usa os modelos puros, sem pedir segurança no prompt e sem revisão humana, então não representa todo uso real. Mas mostra o padrão: o código roda, e isso não diz nada sobre quem consegue acessá-lo.
O caso que virou exemplo
Em janeiro de 2026, a Wiz encontrou o banco de dados do Moltbook, uma rede social de agentes de IA criada com vibe coding, aberto para leitura e escrita. Estavam expostos 1,5 milhão de tokens de API, dezenas de milhares de e-mails e mensagens privadas, algumas com chaves de outros serviços.
A causa foi simples. A chave do Supabase estava no JavaScript do site, o que não é um problema por si só, mas as tabelas não tinham Row Level Security. Sem essas regras, a chave dava acesso ao banco inteiro para qualquer pessoa. A equipe corrigiu em poucas horas depois do aviso. Com clientes pagantes, esse tipo de erro custaria bem mais caro.
1. Seus dados: um cliente vê os dados do outro?
Este é o teste mais importante. O Row Level Security funciona como um filtro aplicado a toda consulta, direto no banco. Se o seu app usa Supabase, confira se ele está ativo em todas as tabelas e se as regras fazem sentido. Em outros bancos, a verificação precisa existir no servidor, em toda consulta.
Depois, teste de verdade, em vez de confiar na tela:
- Crie duas contas e tente abrir, pelo endereço direto, um registro da conta A estando logado na B.
- Consulte uma tabela privada só com a chave pública, sem login. A resposta deveria vir vazia:
curl "https://SEU-PROJETO.supabase.co/rest/v1/TABELA?select=*" \
-H "apikey: SUA_CHAVE_PUBLICA"- Repita a tentativa com escrita. O Moltbook também permitia alterar dados, o que costuma ser pior do que vazar.
2. Suas chaves: o que está exposto?
- A chave pública pode ir para o navegador. A secreta, que ignora as regras, nunca. O mesmo vale para as chaves de OpenAI, Anthropic, Stripe e serviços de e-mail.
- Abra o site, veja o código-fonte e os arquivos JavaScript e procure por trechos como
secretesk-. - Confira também o histórico do repositório. Apagar uma chave no último commit não a remove do histórico: troque a chave.
3. Seus limites: o que acontece com abuso?
No Moltbook, não havia limite para criar contas em sequência. Em um SaaS, isso abre espaço para força bruta no login e para uma conta alta de e-mail ou de IA. Coloque limites por IP e por usuário no login, no cadastro, no formulário de contato e em qualquer rota que chame um modelo de IA. Defina também um alerta de gastos em cada fornecedor.
4. Seu dinheiro: a cobrança é confiável?
- Quem decide o plano e o preço é o servidor, nunca um valor enviado pelo navegador.
- Confira a assinatura de todo webhook de pagamento. Sem isso, qualquer um pode avisar ao seu sistema que “pagou”.
- Trate o mesmo aviso duas vezes sem cobrar ou liberar em dobro, porque os serviços de pagamento reenviam eventos.
- Teste cartão recusado, assinatura cancelada e pagamento atrasado, não só o caso em que tudo dá certo.
5. Seu plano B: dá para voltar atrás?
- Ative backups e restaure um deles em um ambiente de teste. Backup nunca restaurado é só uma hipótese.
- Separe desenvolvimento e produção. Um agente de IA não deve ter acesso ao banco de produção enquanto você testa.
- Ative o registro de erros, para saber de uma falha antes que o cliente precise avisar.
6. A LGPD também vale para você
Se o app guarda dados de pessoas no Brasil, a lei se aplica, mesmo em um projeto pequeno. No mínimo, tenha uma política de privacidade verdadeira, colete só o necessário, permita excluir a conta e saiba quais fornecedores recebem esses dados. Em casos de dados sensíveis, como saúde, fale com um advogado antes de lançar.
Pedir para a própria IA revisar resolve?
Ajuda, e vale fazer. Peça uma revisão focada em cada item desta lista e peça também os testes que comprovam cada resposta. Mas não pare no “está tudo certo”: execute os testes. Em dados de terceiros, pagamentos ou informações sensíveis, vale ter uma pessoa experiente olhando antes do lançamento. Custa pouco perto de avisar seus clientes sobre um vazamento.













